Comer areia e sal.
Comer areia e sal.
Clemente Ganz Lúcio [1]
É sofrido escrever porque está difícil refletir sobre a complexidade das adversidades da situação histórica presente no mundo e no Brasil. Escrever é uma forma de fotografar o pensamento, ou de dar à reflexão uma forma, ou ainda, simplesmente, de colocar a mente para trabalhar. Pensar dói e a consciência provoca sofrimento. A memória, esse recurso poderosíssimo da mente, permite a reflexão sobre o passado e, incrivelmente, sondar possibilidades sobre o futuro.
O pensamento permite, simultaneamente, olhar e ver. Olhamos sempre, porém, vemos pouco. O ato de ver exige o difícil trabalho de reflexão. Olhar e, ao mesmo tempo, ver, requer um esforço para ultrapassar a aparência dos fenômenos. O pensamento crítico busca compreender a complexidade dos fenômenos na sua multiplicidade de determinações e de relações. É por meio do debate com o outro que cada um, com seu trabalho metódico de reflexão, desenvolve a possibilidade de ver a complexidade das situações e dos fenômenos e a multiplicidade de visões possíveis. Assim, a própria complexidade dos fenômenos se amplia com a diversidade de visões.
Cada pessoa é um olhar, mas é na relação com o outro que ele adquire a capacidade de ver. Ver é resultado do pensamento produzido na relação com o outro, essa mesma relação que nos torna humanos e históricos e com quem construímos as formas de viver em sociedade.
É com os outros que muitos buscam, ao longo da história, promover transformações orientadas por um sentido estético de justiça, que seja capaz de promover a igualdade de oportunidades, de resultados e de condições em cada sociedade concreta. A construção dessas transformações deve ser feita em liberdade e a democracia é a forma de se fazer coletivamente as escolhas.
Entretanto, o olhar crítico histórico evidencia que igualdade, liberdade e justiça são breves resultados de longas lutas sociais e que os períodos de sua destruição são mais longos e duradouros. Isso torna o trabalho intelectual, comprometido com a intervenção para promover o sentido da igualdade, da liberdade e da justiça, semelhante a comer areia e sal.
O repórter perguntou à José Saramago, escritor português, em conversa sobre seu romance “Ensaio sobre a Cegueira”: por quê você é tão pessimista em seus trabalhos? Não sou pessimista, a realidade é que é péssima, respondeu.
Nosso eterno desafio é desenvolver a capacidade específica de olhar e ver para que se encontre, em cada situação e contexto, a água da história que permite fazer da areia, construção e do sal, alimento. Para isso, é preciso reunir, esse tempo e espaço necessário para encontrar o outro e para juntos verem e redescobrirem a força da união.
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