Roteiro de desafios do mundo do trabalho para os próximos anos e respostas em termos de políticas publicas e negociação coletiva

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Roteiro de desafios do mundo do trabalho para os próximos anos e respostas em termos de políticas publicas e negociação coletiva

 

Clemente Ganz Lúcio[1]

 

O mundo do trabalho está em um processo de transformações profundas, aceleradas e simultâneas. Não se trata apenas de tratar dos problemas conjunturais do emprego, mas de responder a uma reorganização estrutural da produção, da tecnologia, da demografia, da ecologia, da geopolítica e das instituições. Essas transições podem ampliar precariedades, desigualdades e inseguranças, mas também podem abrir a possibilidade de construir um novo padrão de desenvolvimento com mais produtividade, proteção social, qualidade do emprego, justiça distributiva e fortalecimento da organização sindical dos trabalhadores

O ponto central é este: a resposta aos desafios do trabalho no futuro dependerá da capacidade de combinar regulação pública, proteção social, negociação coletiva e organização sindical de ampla base de representação e alta representatividade. Onde isso não ocorrer, a tendência será a ampliação da fragmentação do trabalho, da desproteção, da concentração dos ganhos e fragilização das instituições do Estrado Democrático de Direito. Onde ocorrer, será possível transformar mudança tecnológica e reestruturação produtiva em trabalho decente, inclusão produtiva, redução das desigualdades, desenvolvimento e fortalecimento da democracia.

 

2. As transições e os desafios

2.1 Transição tecnológica e digital

A difusão da inteligência artificial, da robotização, da automação, da digitalização, da plataformização e da gestão algorítmica está alterando processos produtivos, organização das empresas e corporações, ocupações, qualificações exigidas, tempos e espaços de trabalho. A tecnologia pode elevar a produtividade e criar novas capacidades econômicas, mas também pode intensificar controle, fragmentar vínculos, desorganizar profissões e concentrar renda e poder.

Desafios principais

·       destruição de postos de trabalho e de profissões;

·       substituição, transformação e criação desigual de ocupações;

·       polarização do mercado de trabalho (alta qualificação e salários x baixa qualificação e salários);

·       expansão do trabalho por plataformas e de formas híbridas e atípicas de contratação predominantemente precarizada;

·       gestão algorítmica e opacidade decisória;

·       intensificação do trabalho e ampliação dos riscos psicossociais (estresse, ansiedade, solidão, suicídio) e de doenças ocupacionais;

·       defasagem entre formação profissional e novas exigências produtivas;

·       exigência de formação contínua e de educação permanentemente atualizada.

·       Individualismo e quebra dos laços de solidariedade;

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       construir uma política nacional de transição ocupacional (parte da política pública de trabalho, emprego e renda), com requalificação permanente (pode ser objeto de contratação coletiva) e apoio à recolocação (a transformação de um sistema de intermediação de mão-de-obra para um sistema de inclusão produtiva);

·       reestruturar e fortalecer o sistema público de emprego, trabalho e renda para desenvolver um programa de proteção dos empregos, captação integrada das vagas ofertadas, intermediação ativa conexa com formação e orientação profissional;

·       regular trabalho em plataformas, subordinação algorítmica, transparência de critérios e responsabilidade das empresas, fortalecendo a capacidade de contratação coletiva;

·       vincular políticas industriais, tecnológicas e de inovação à geração de empregos de qualidade (incluir a dimensão do trabalho/emprego como constitutivas dessas políticas);

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       adaptar proteção social a trajetórias laborais mais descontínuas;

·       ampliar cobertura previdenciária (universalizar) para trabalhadores com vínculos instáveis, intermitentes ou por conta própria;

·       criar mecanismos de proteção à renda em transições ocupacionais mais frequentes;

·       reforçar saúde do trabalhador com ênfase em adoecimento mental, burnout, intensificação digital, depressão, solidão, cuidados etc.

Respostas da negociação coletiva

·       prioridade para a pauta sindical: inovação tecnológica, emprego, renda, saúde e regulação;

·       negociar regras sobre uso de IA, monitoramento digital e algoritmos;

·       pactuar formação continuada custeada ou cofinanciada pelas empresas;

·       regular teletrabalho, direito à desconexão, metas e controle;

·       definir critérios para realocação, reconversão profissional e compartilhamento dos ganhos de produtividade.

 

2.2 Transição ecológica e climática

 

A crise climática, a descarbonização, a reorganização energética e a necessidade de adaptação ambiental reestruturarão cadeias produtivas, territórios e ocupações. Haverá destruição de empregos em certos segmentos, expansão em outros e reconfiguração regional da atividade econômica.

Desafios principais

·       fechamento, transformação ou reconversão de atividades intensivas em carbono;

·       emergência de novos empregos verdes e novas qualificações;

·       vulnerabilidade ocupacional em territórios dependentes de setores em transição;

·       impactos climáticos sobre saúde e segurança no trabalho;

·       necessidade de combinar sustentabilidade ambiental, competitividade produtiva e inclusão social;

·       tragédias se tornarão maios frequentes e intensas: mitigar impactos / enfrentar tragédias = políticas públicas estruturadas.

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       construir e implementar em todas as políticas públicas de desenvolvimento produtivo e socioambiental uma estratégia nacional de transição justa;

·       mapear e construir respostas para os setores, territórios e ocupações mais expostos;

·       criar programas de reconversão produtiva e qualificação para empregos verdes;

·       integrar política industrial, energética, ambiental e de emprego;

·       apoiar cadeias de valor associadas à transição energética, mobilidade sustentável, economia circular e adaptação climática.

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       proteger renda e trajetórias dos trabalhadores afetados por fechamento ou reconversão de atividades / impactos das tragédias climáticas;

·       reforçar seguridade em territórios vulneráveis a choques climáticos;

·       adaptar normas previdenciárias e assistenciais a riscos ocupacionais agravados por calor extremo, eventos climáticos e desastres.

Respostas da negociação coletiva

·       negociar planos setoriais e territoriais de transição justa;

·       pactuar qualificação, mobilidade ocupacional e compensações;

·       regular saúde e segurança diante de eventos climáticos extremos;

·       incluir cláusulas de sustentabilidade produtiva com proteção ao emprego e à renda.

 

2.3 Transição demográfica e dos cuidados

O envelhecimento populacional, a mudança na estrutura das famílias, a persistência das desigualdades de gênero e raça e a expansão da economia do cuidado alteram a oferta de trabalho, a demanda por serviços e a sustentabilidade dos sistemas de proteção.

Desafios principais

·       envelhecimento da força de trabalho;

·       maior pressão sobre previdência, saúde e cuidados de longa duração;

·       necessidade de inclusão produtiva de jovens em empregos de qualidade;

·       desigual distribuição do trabalho de cuidado, especialmente sobre as mulheres;

·       persistência de desigualdades raciais, territoriais e de gênero no mercado de trabalho;

·       produtividade, envelhecimento e inovação tecnológica: a agenda de transição estrutural.

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       políticas específicas para juventude, transição escola-trabalho e primeiro emprego de qualidade;

·       estratégias para permanência ativa e protegida dos trabalhadores mais velhos;

·       expansão da economia do cuidado como setor gerador de emprego qualificado;

·       políticas de igualdade salarial, diversidade e combate à discriminação;

·       reorganizar o tempo e a escala de trabalho ao longo da vida.

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       reorganizar a proteção social para responder ao envelhecimento e à dependência;

·       ampliar oferta pública e comunitária de cuidados;

·       fortalecer previdência pública e cobertura contributiva;

·       reconhecer desigualdades de gênero e raça nas trajetórias contributivas e no acesso à proteção.

Respostas da negociação coletiva

·       negociar políticas de cuidado, licenças, jornadas e conciliação entre trabalho e vida;

·       pactuar medidas de igualdade salarial e ascensão profissional;

·       criar dispositivos de combate ao assédio, discriminação e violência no trabalho;

·       ajustar jornadas, funções e condições para trabalhadores mais velhos.

 

2.4 Transição geopolítica, comercial e produtiva

A reconfiguração das cadeias globais, os conflitos geopolíticos, o protecionismo, as disputas tecnológicas, a regionalização produtiva, os acordos comerciais e as pressões competitivas redefinem o espaço de políticas industriais e a organização do trabalho.

Desafios principais

·       vulnerabilidade externa de cadeias estratégicas;

·       risco de desindustrialização regressiva e reprimarização;

·       concorrência internacional baseada em baixos custos e desproteção;

·       necessidade de elevar produtividade com agregação de valor e inovação;

·       instabilidade econômica com efeitos sobre emprego, salário e investimento.

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       articular política de emprego com política industrial, comercial e tecnológica;

·       usar compras públicas, financiamento e conteúdo local para induzir emprego de qualidade;

·       fortalecer setores estratégicos com capacidade de gerar trabalho qualificado;

·       construir instrumentos de antecipação e proteção diante de choques setoriais;

·       atuar na regulação e monitoramento das acordos comerciais..

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       ampliar proteção anticíclica em períodos de desaceleração e reestruturação;

·       garantir renda e cobertura em processos de deslocamento setorial;

·       usar a seguridade como estabilizador social e econômico.                     

Respostas da negociação coletiva

·       negociar produtividade com distribuição dos ganhos;

·       pactuar modernização produtiva com proteção do emprego;

·       fortalecer negociação setorial para evitar competição predatória baseada em rebaixamento de direitos;

·       estabelecer mecanismos para mediação rápida de mudanças organizacionais.

 

2.5 Transição institucional, democrática e regulatória

O mundo do trabalho também é afetado por crise de representação, enfraquecimento de instituições coletivas, judicialização excessiva, fragmentação sindical, novas disputas sobre regulação do trabalho e o crescimento da agenda conservadora e da extrema direita. ]

Desafios principais

·       erosão da capacidade regulatória do Estado em tempo real;

·       fragilização da representação coletiva em mercados de trabalho fragmentados;

·       dificuldade de alcançar trabalhadores em novas formas de ocupação;

·       crescente judicialização em vez de regulação negociada;

·       necessidade de atualizar instituições sem desmontar proteção.

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       reconstruir capacidades estatais de inspeção, regulação e mediação;

·       modernizar o sistema público de emprego e informação do mercado de trabalho;

·       fortalecer instâncias tripartites e mecanismos de diálogo social;

·       atualizar marcos regulatórios para novas realidades produtivas sem precarizar.

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       sustentar a universalidade e a solidariedade da proteção social;

·       impedir que fragmentação ocupacional se converta em exclusão previdenciária;

·       integrar melhor assistência, seguro, qualificação e inclusão produtiva.

Respostas da negociação coletiva

·       ampliar cobertura negocial;

·       fortalecer sindicatos, especialmente onde o trabalho está mais disperso e precarizado;

·       inovar em formas de representação de trabalhadores de plataformas, terceirizados e autônomos economicamente dependentes;

·       recolocar a negociação coletiva como instrumento central de regulação viva das transformações do trabalho.

 

3. Desafios estruturantes a serem enfrentados de forma transversal

Além das transições, há um conjunto de desafios que atravessa todas elas.

3.1 Recolocar a qualidade do emprego no centro

Não basta gerar ocupação. O desafio é gerar trabalho decente, com salário adequado, proteção social, direitos, representação e perspectivas de progressão. Esse desafio será respondido pela qualidade da política de desenvolvimento produtivo/industrial, das estratégias de inovação e de agregação de valor, distribuídas no território e nas cadeias produtivas que são nossas fronteiras de expansão econômica.

3.2 Distribuir os ganhos de produtividade

As transformações tecnológicas e produtivas só terão legitimidade social se seus ganhos forem compartilhados em forma de melhores salários; redução do tempo de trabalho; qualificação profissional; proteção ao longo da vida; investimento na qualidade de vida e na coesão social.

3.3 Reconstruir o elo entre crescimento, produtividade e inclusão

Emprego de qualidade depende de investimento, mudança estrutural e adensamento produtivo. Não haverá política de trabalho robusta sem estratégia de desenvolvimento.

3.4 Enfrentar desigualdades persistentes

Gênero, raça, território, geração e condição ocupacional continuarão organizando o acesso desigual a emprego, renda e proteção. O futuro do trabalho será também uma disputa sobre igualdade substantiva.

3.5 Integrar trabalho e proteção social

 

Num mundo de trajetórias mais móveis e vínculos mais instáveis, a proteção social deve acompanhar a trajetória de vida das pessoas, e não apenas o contrato típico.

3.6 Políticas públicas, qualidade de vida e crescimento dos salários

            Desenvolver políticas públicas que incidam diretamente sobre qualidade de vida e o crescimento dos salários (efeito direito sobre a renda disponível), como:

·      acesso universal à moradia;

·      Creche e escola em tempo integral (qualidade da educação + segurança para as famílias + liberdade para as mulheres + aumento da renda disponível)

·      Transporte publico (tarifa zero)

·      Fortalecimento do SUS

 

3.7 Cooperativismo e economia solidária

Difundir a fortalecer a cultura do cooperativismo e dos valores e estratégias da economia solidária e popular, investindo em inovação tecnológica, agregação de valor, mercado nacional e internacional, gestão e investimento/crédito.

 

4. Agenda articulada de respostas

4.1 No campo da política pública de emprego, trabalho e renda

·       reestruturar e modernizar o sistema público de emprego;

·       integrar intermediação, qualificação, orientação e proteção à renda em um sistema nacional de inclusão produtiva;

·       regular e proteger as novas formas de trabalho;

·       vincular política industrial e tecnológica a metas de emprego de qualidade;

·       produzir capacidade prospectiva sobre ocupações, setores e territórios;

·       valorizar salário mínimo e fortalecer formalização;

·       Fortalecer a negociação coletiva e seus instrumentos.

4.2 No campo das políticas sociais e previdenciárias

·       ampliar cobertura diante da fragmentação do trabalho;

·       adaptar previdência e proteção contributiva a trajetórias descontínuas;

·       fortalecer assistência, cuidados e proteção à renda;

·       prevenir riscos psicossociais e ocupacionais emergentes;

·       construir mecanismos de proteção nas transições ecológica, digital e demográfica;

·       Articular as políticas públicas de proteção da renda e integrá-las em um sistema de inclusão produtiva e de geração de empregos de interesse coletivo, comunitário e público.

4.3 No campo da negociação coletiva

·       regular em tempo real mudanças produtivas e tecnológicas;

·       negociar distribuição dos ganhos de produtividade;

·       proteger jornadas, saúde e condições de trabalho;

·       ampliar cobertura para a representação e representatividade;

·       incorporar temas novos: IA, algoritmos, clima, cuidados, diversidade, formação contínua;

·       fortalecer sindicatos como instituições centrais de regulação democrática do trabalho e sua capacidade de financiamento e investimento.

 

5. Síntese

Os próximos anos serão marcados não por uma única mudança, mas pela convergência de grandes transições tecnológicas, ecológicas, demográficas, geopolíticas e institucionais. Elas reconfiguram a produção, alteram ocupações, deslocam cadeias produtivas, pressionam sistemas de proteção e desafiam as formas tradicionais de representação e regulação do trabalho. Diante disso, a resposta não pode ser fragmentada. Será necessário articular política pública de emprego, trabalho e renda, políticas sociais e previdenciárias e negociação coletiva, para que as transformações em curso não aprofundem precariedades e desigualdades, mas se convertam em oportunidade de construção de um novo padrão de desenvolvimento com trabalho decente, transição justa, proteção social e democracia econômica.

 



[1] Sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, Coordenador do Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).Roteiro de desafios do mundo do trabalho para os próximos anos e respostas em termos de políticas publicas e negociação coletiva

 

Clemente Ganz Lúcio[1]

 

O mundo do trabalho está em um processo de transformações profundas, aceleradas e simultâneas. Não se trata apenas de tratar dos problemas conjunturais do emprego, mas de responder a uma reorganização estrutural da produção, da tecnologia, da demografia, da ecologia, da geopolítica e das instituições. Essas transições podem ampliar precariedades, desigualdades e inseguranças, mas também podem abrir a possibilidade de construir um novo padrão de desenvolvimento com mais produtividade, proteção social, qualidade do emprego, justiça distributiva e fortalecimento da organização sindical dos trabalhadores

O ponto central é este: a resposta aos desafios do trabalho no futuro dependerá da capacidade de combinar regulação pública, proteção social, negociação coletiva e organização sindical de ampla base de representação e alta representatividade. Onde isso não ocorrer, a tendência será a ampliação da fragmentação do trabalho, da desproteção, da concentração dos ganhos e fragilização das instituições do Estrado Democrático de Direito. Onde ocorrer, será possível transformar mudança tecnológica e reestruturação produtiva em trabalho decente, inclusão produtiva, redução das desigualdades, desenvolvimento e fortalecimento da democracia.

 

2. As transições e os desafios

2.1 Transição tecnológica e digital

A difusão da inteligência artificial, da robotização, da automação, da digitalização, da plataformização e da gestão algorítmica está alterando processos produtivos, organização das empresas e corporações, ocupações, qualificações exigidas, tempos e espaços de trabalho. A tecnologia pode elevar a produtividade e criar novas capacidades econômicas, mas também pode intensificar controle, fragmentar vínculos, desorganizar profissões e concentrar renda e poder.

Desafios principais

·       destruição de postos de trabalho e de profissões;

·       substituição, transformação e criação desigual de ocupações;

·       polarização do mercado de trabalho (alta qualificação e salários x baixa qualificação e salários);

·       expansão do trabalho por plataformas e de formas híbridas e atípicas de contratação predominantemente precarizada;

·       gestão algorítmica e opacidade decisória;

·       intensificação do trabalho e ampliação dos riscos psicossociais (estresse, ansiedade, solidão, suicídio) e de doenças ocupacionais;

·       defasagem entre formação profissional e novas exigências produtivas;

·       exigência de formação contínua e de educação permanentemente atualizada.

·       Individualismo e quebra dos laços de solidariedade;

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       construir uma política nacional de transição ocupacional (parte da política pública de trabalho, emprego e renda), com requalificação permanente (pode ser objeto de contratação coletiva) e apoio à recolocação (a transformação de um sistema de intermediação de mão-de-obra para um sistema de inclusão produtiva);

·       reestruturar e fortalecer o sistema público de emprego, trabalho e renda para desenvolver um programa de proteção dos empregos, captação integrada das vagas ofertadas, intermediação ativa conexa com formação e orientação profissional;

·       regular trabalho em plataformas, subordinação algorítmica, transparência de critérios e responsabilidade das empresas, fortalecendo a capacidade de contratação coletiva;

·       vincular políticas industriais, tecnológicas e de inovação à geração de empregos de qualidade (incluir a dimensão do trabalho/emprego como constitutivas dessas políticas);

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       adaptar proteção social a trajetórias laborais mais descontínuas;

·       ampliar cobertura previdenciária (universalizar) para trabalhadores com vínculos instáveis, intermitentes ou por conta própria;

·       criar mecanismos de proteção à renda em transições ocupacionais mais frequentes;

·       reforçar saúde do trabalhador com ênfase em adoecimento mental, burnout, intensificação digital, depressão, solidão, cuidados etc.

Respostas da negociação coletiva

·       prioridade para a pauta sindical: inovação tecnológica, emprego, renda, saúde e regulação;

·       negociar regras sobre uso de IA, monitoramento digital e algoritmos;

·       pactuar formação continuada custeada ou cofinanciada pelas empresas;

·       regular teletrabalho, direito à desconexão, metas e controle;

·       definir critérios para realocação, reconversão profissional e compartilhamento dos ganhos de produtividade.

 

2.2 Transição ecológica e climática

 

A crise climática, a descarbonização, a reorganização energética e a necessidade de adaptação ambiental reestruturarão cadeias produtivas, territórios e ocupações. Haverá destruição de empregos em certos segmentos, expansão em outros e reconfiguração regional da atividade econômica.

Desafios principais

·       fechamento, transformação ou reconversão de atividades intensivas em carbono;

·       emergência de novos empregos verdes e novas qualificações;

·       vulnerabilidade ocupacional em territórios dependentes de setores em transição;

·       impactos climáticos sobre saúde e segurança no trabalho;

·       necessidade de combinar sustentabilidade ambiental, competitividade produtiva e inclusão social;

·       tragédias se tornarão maios frequentes e intensas: mitigar impactos / enfrentar tragédias = políticas públicas estruturadas.

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       construir e implementar em todas as políticas públicas de desenvolvimento produtivo e socioambiental uma estratégia nacional de transição justa;

·       mapear e construir respostas para os setores, territórios e ocupações mais expostos;

·       criar programas de reconversão produtiva e qualificação para empregos verdes;

·       integrar política industrial, energética, ambiental e de emprego;

·       apoiar cadeias de valor associadas à transição energética, mobilidade sustentável, economia circular e adaptação climática.

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       proteger renda e trajetórias dos trabalhadores afetados por fechamento ou reconversão de atividades / impactos das tragédias climáticas;

·       reforçar seguridade em territórios vulneráveis a choques climáticos;

·       adaptar normas previdenciárias e assistenciais a riscos ocupacionais agravados por calor extremo, eventos climáticos e desastres.

Respostas da negociação coletiva

·       negociar planos setoriais e territoriais de transição justa;

·       pactuar qualificação, mobilidade ocupacional e compensações;

·       regular saúde e segurança diante de eventos climáticos extremos;

·       incluir cláusulas de sustentabilidade produtiva com proteção ao emprego e à renda.

 

2.3 Transição demográfica e dos cuidados

O envelhecimento populacional, a mudança na estrutura das famílias, a persistência das desigualdades de gênero e raça e a expansão da economia do cuidado alteram a oferta de trabalho, a demanda por serviços e a sustentabilidade dos sistemas de proteção.

Desafios principais

·       envelhecimento da força de trabalho;

·       maior pressão sobre previdência, saúde e cuidados de longa duração;

·       necessidade de inclusão produtiva de jovens em empregos de qualidade;

·       desigual distribuição do trabalho de cuidado, especialmente sobre as mulheres;

·       persistência de desigualdades raciais, territoriais e de gênero no mercado de trabalho;

·       produtividade, envelhecimento e inovação tecnológica: a agenda de transição estrutural.

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       políticas específicas para juventude, transição escola-trabalho e primeiro emprego de qualidade;

·       estratégias para permanência ativa e protegida dos trabalhadores mais velhos;

·       expansão da economia do cuidado como setor gerador de emprego qualificado;

·       políticas de igualdade salarial, diversidade e combate à discriminação;

·       reorganizar o tempo e a escala de trabalho ao longo da vida.

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       reorganizar a proteção social para responder ao envelhecimento e à dependência;

·       ampliar oferta pública e comunitária de cuidados;

·       fortalecer previdência pública e cobertura contributiva;

·       reconhecer desigualdades de gênero e raça nas trajetórias contributivas e no acesso à proteção.

Respostas da negociação coletiva

·       negociar políticas de cuidado, licenças, jornadas e conciliação entre trabalho e vida;

·       pactuar medidas de igualdade salarial e ascensão profissional;

·       criar dispositivos de combate ao assédio, discriminação e violência no trabalho;

·       ajustar jornadas, funções e condições para trabalhadores mais velhos.

 

2.4 Transição geopolítica, comercial e produtiva

A reconfiguração das cadeias globais, os conflitos geopolíticos, o protecionismo, as disputas tecnológicas, a regionalização produtiva, os acordos comerciais e as pressões competitivas redefinem o espaço de políticas industriais e a organização do trabalho.

Desafios principais

·       vulnerabilidade externa de cadeias estratégicas;

·       risco de desindustrialização regressiva e reprimarização;

·       concorrência internacional baseada em baixos custos e desproteção;

·       necessidade de elevar produtividade com agregação de valor e inovação;

·       instabilidade econômica com efeitos sobre emprego, salário e investimento.

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       articular política de emprego com política industrial, comercial e tecnológica;

·       usar compras públicas, financiamento e conteúdo local para induzir emprego de qualidade;

·       fortalecer setores estratégicos com capacidade de gerar trabalho qualificado;

·       construir instrumentos de antecipação e proteção diante de choques setoriais;

·       atuar na regulação e monitoramento das acordos comerciais..

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       ampliar proteção anticíclica em períodos de desaceleração e reestruturação;

·       garantir renda e cobertura em processos de deslocamento setorial;

·       usar a seguridade como estabilizador social e econômico.                     

Respostas da negociação coletiva

·       negociar produtividade com distribuição dos ganhos;

·       pactuar modernização produtiva com proteção do emprego;

·       fortalecer negociação setorial para evitar competição predatória baseada em rebaixamento de direitos;

·       estabelecer mecanismos para mediação rápida de mudanças organizacionais.

 

2.5 Transição institucional, democrática e regulatória

O mundo do trabalho também é afetado por crise de representação, enfraquecimento de instituições coletivas, judicialização excessiva, fragmentação sindical, novas disputas sobre regulação do trabalho e o crescimento da agenda conservadora e da extrema direita. ]

Desafios principais

·       erosão da capacidade regulatória do Estado em tempo real;

·       fragilização da representação coletiva em mercados de trabalho fragmentados;

·       dificuldade de alcançar trabalhadores em novas formas de ocupação;

·       crescente judicialização em vez de regulação negociada;

·       necessidade de atualizar instituições sem desmontar proteção.

Respostas da política pública de emprego, trabalho e renda

·       reconstruir capacidades estatais de inspeção, regulação e mediação;

·       modernizar o sistema público de emprego e informação do mercado de trabalho;

·       fortalecer instâncias tripartites e mecanismos de diálogo social;

·       atualizar marcos regulatórios para novas realidades produtivas sem precarizar.

Respostas das políticas sociais e previdenciárias

·       sustentar a universalidade e a solidariedade da proteção social;

·       impedir que fragmentação ocupacional se converta em exclusão previdenciária;

·       integrar melhor assistência, seguro, qualificação e inclusão produtiva.

Respostas da negociação coletiva

·       ampliar cobertura negocial;

·       fortalecer sindicatos, especialmente onde o trabalho está mais disperso e precarizado;

·       inovar em formas de representação de trabalhadores de plataformas, terceirizados e autônomos economicamente dependentes;

·       recolocar a negociação coletiva como instrumento central de regulação viva das transformações do trabalho.

 

3. Desafios estruturantes a serem enfrentados de forma transversal

Além das transições, há um conjunto de desafios que atravessa todas elas.

3.1 Recolocar a qualidade do emprego no centro

Não basta gerar ocupação. O desafio é gerar trabalho decente, com salário adequado, proteção social, direitos, representação e perspectivas de progressão. Esse desafio será respondido pela qualidade da política de desenvolvimento produtivo/industrial, das estratégias de inovação e de agregação de valor, distribuídas no território e nas cadeias produtivas que são nossas fronteiras de expansão econômica.

3.2 Distribuir os ganhos de produtividade

As transformações tecnológicas e produtivas só terão legitimidade social se seus ganhos forem compartilhados em forma de melhores salários; redução do tempo de trabalho; qualificação profissional; proteção ao longo da vida; investimento na qualidade de vida e na coesão social.

3.3 Reconstruir o elo entre crescimento, produtividade e inclusão

Emprego de qualidade depende de investimento, mudança estrutural e adensamento produtivo. Não haverá política de trabalho robusta sem estratégia de desenvolvimento.

3.4 Enfrentar desigualdades persistentes

Gênero, raça, território, geração e condição ocupacional continuarão organizando o acesso desigual a emprego, renda e proteção. O futuro do trabalho será também uma disputa sobre igualdade substantiva.

3.5 Integrar trabalho e proteção social

 

Num mundo de trajetórias mais móveis e vínculos mais instáveis, a proteção social deve acompanhar a trajetória de vida das pessoas, e não apenas o contrato típico.

3.6 Políticas públicas, qualidade de vida e crescimento dos salários

            Desenvolver políticas públicas que incidam diretamente sobre qualidade de vida e o crescimento dos salários (efeito direito sobre a renda disponível), como:

·      acesso universal à moradia;

·      Creche e escola em tempo integral (qualidade da educação + segurança para as famílias + liberdade para as mulheres + aumento da renda disponível)

·      Transporte publico (tarifa zero)

·      Fortalecimento do SUS

 

3.7 Cooperativismo e economia solidária

Difundir a fortalecer a cultura do cooperativismo e dos valores e estratégias da economia solidária e popular, investindo em inovação tecnológica, agregação de valor, mercado nacional e internacional, gestão e investimento/crédito.

 

4. Agenda articulada de respostas

4.1 No campo da política pública de emprego, trabalho e renda

·       reestruturar e modernizar o sistema público de emprego;

·       integrar intermediação, qualificação, orientação e proteção à renda em um sistema nacional de inclusão produtiva;

·       regular e proteger as novas formas de trabalho;

·       vincular política industrial e tecnológica a metas de emprego de qualidade;

·       produzir capacidade prospectiva sobre ocupações, setores e territórios;

·       valorizar salário mínimo e fortalecer formalização;

·       Fortalecer a negociação coletiva e seus instrumentos.

4.2 No campo das políticas sociais e previdenciárias

·       ampliar cobertura diante da fragmentação do trabalho;

·       adaptar previdência e proteção contributiva a trajetórias descontínuas;

·       fortalecer assistência, cuidados e proteção à renda;

·       prevenir riscos psicossociais e ocupacionais emergentes;

·       construir mecanismos de proteção nas transições ecológica, digital e demográfica;

·       Articular as políticas públicas de proteção da renda e integrá-las em um sistema de inclusão produtiva e de geração de empregos de interesse coletivo, comunitário e público.

4.3 No campo da negociação coletiva

·       regular em tempo real mudanças produtivas e tecnológicas;

·       negociar distribuição dos ganhos de produtividade;

·       proteger jornadas, saúde e condições de trabalho;

·       ampliar cobertura para a representação e representatividade;

·       incorporar temas novos: IA, algoritmos, clima, cuidados, diversidade, formação contínua;

·       fortalecer sindicatos como instituições centrais de regulação democrática do trabalho e sua capacidade de financiamento e investimento.

 

5. Síntese

Os próximos anos serão marcados não por uma única mudança, mas pela convergência de grandes transições tecnológicas, ecológicas, demográficas, geopolíticas e institucionais. Elas reconfiguram a produção, alteram ocupações, deslocam cadeias produtivas, pressionam sistemas de proteção e desafiam as formas tradicionais de representação e regulação do trabalho. Diante disso, a resposta não pode ser fragmentada. Será necessário articular política pública de emprego, trabalho e renda, políticas sociais e previdenciárias e negociação coletiva, para que as transformações em curso não aprofundem precariedades e desigualdades, mas se convertam em oportunidade de construção de um novo padrão de desenvolvimento com trabalho decente, transição justa, proteção social e democracia econômica.

 



[1] Sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, Coordenador do Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).

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